Por que as “iscas de carga” estão perdendo a eficiência na localização?!

Autor: Luiz Carlos Sourient Junior – sourientjr@gmail.com

Especialista em Sistemas de Geolocalização

Quando iniciaram as operações há cerca de 10 anos, as “iscas”, “localizadores de carga”, “virus de carga” ou até mesmo conhecidas por “chip de carga”, tiveram sucessos impressionantes na localização de cargas roubadas, atingindo níveis médios de recuperação na casa dos 98%. Hoje perderam a efetividade alcançada e o percentual de efetividade decresceu substancialmente. Por quê? Há como esta tecnologia ainda ser aplicada? Quais as recomendações para o segmento usuário da tecnologia e para os fornecedores dos produtos e serviços?

Ao longo dos tempos, percebemos que o mercado é uma fonte infindável para a aplicação e criação de soluções tecnológicas, baseadas em hardware e software. No segmento de transporte de cargas, a solução de monitoramento, rastreamento e localização de cargas foi uma grande novidade efetiva na indústria do transporte, para seguradoras e gerenciadoras de risco. Enquanto diversas tecnologias apresentaram suas soluções baseadas em GPS para proteção dos caminhões, as cargas foram atendidas com diversos sistemas portáteis para sua localização.Muitas empresas buscavam alguma tecnologia que possibilitasse a localização de cargas em ambientes fechados, onde o GPS apresentava-se ineficaz para tal. Em 1993, depois de perceber que não havia nada disponível no Brasil, resolvi buscar tecnologias em vários países onde também não encontrei, sendo que resolvi integrar então tecnologias para atender a necessidade. Tivemos sucessos impressionantes nos primeiros protótipos e testes de campo. Pronto, já sabíamos como a inovação poderia atender o mercado! Tínhamos a tecnologia em nossas mãos, as parcerias no segmento de telefonia celular, a solução em radiofrequência, a infraestrutura básica para prestação de serviços, pessoal treinado para atividades em campo… Tudo certo! Fui contratado para implantar a tecnologia numa empresa paulista que atuava no segmento de rastreamento de veículos onde o telefone nem tocava mais e o fim da empresa parecia ser fatal. Após a implantação da tecnologia, estruturação do sistema operacional, treinamentos na área comercial e de campo, os dois primeiros anos resultaram em sucessos estrondosos junto ao nosso primeiro cliente, uma distribuidora de cigarros, onde roubos semanais ocorriam seguidos de recuperação das cargas com índices que na média anual atingiam o patamar de 98% de sucesso. Nos anos seguintes o assunto “Isca de Carga”, “Localizador de Cargas”, “Virus de Carga”, eram recorrentes nas seguradoras, gerenciadoras de risco, embarcadores, etc. Outras empresas começaram a entrar no segmento, na busca voraz pela utilização desta tecnologia, real e imediata, a ponto de se desenvolver sistemas “descartáveis”, com volumes absurdos de sistemas jogados no lixo após a utilização… Uma empresa chegava a utilizar mais de 6 mil dispositivos descartáveis por mês, e no conjunto de empresas que utilizavam os sistemas descartáveis, estimava-se que mais de 12 mil sistemas / mês eram descartados após uso, sem computar as centenas de sistemas retornáveis.

Incomodado com essa situação, resolvi dar algumas respostas para as seguintes questões: Por que, nos últimos anos a coisa toda decaiu? Por que empresas fornecedoras fecharam? Por que os índices de recuperação baixaram drasticamente? Por que os dispositivos perderam credibilidade? Vou fazer algumas considerações, pois fui integrante do desenvolvimento, da implantação, da operação, do comercial e principalmente na recuperação em campo de cargas roubadas…

Por que, nos últimos anos a coisa toda decaiu? Uma das coisas básicas para que o sucesso do sistema fosse mantido, era a confidencialidade da operação. O mínimo de pessoas deveriam participar do processo. O que nem sempre ocorria. Pessoas são pessoas, e as informações e procedimentos vazavam constantemente, incluindo ai a negligencia na manipulação dos dispositivos no ambiente onde as “iscas” seriam implantadas. O fator mais importante do processo, a discrição, não era levada em conta. Isso foi constatado quando soube-se que em diversos casos de roubos, os criminosos sabiam que havia “isca” implantada e chegavam ao ponto de questionar motoristas para que indicassem qual a caixa ela estava implantada. Ou seja, os procedimentos de segurança foram sobrepujados por operações equivocadas e até a resistência por parte de muitas empresas usuárias. Outro evento (de muitos) que pudemos testemunhar foi a divulgação para o mercado através de catálogos “detalhados” do funcionamento do sistema… Em uma ocasião, todas as seguradoras, gerenciadoras de risco, transportadoras, etc., foram convidadas para um café da manhã, num hangar no Campo de Marte, para que conhecer a tecnologia numa palestra detalhada sobre a operação e a tecnologia e não bastasse isso, TODOS foram convidados a voar num helicóptero para ver e testemunhar como a eletrônica embarcada funcionava na localização de uma “isca” previamente deixada em um ponto de São Paulo… Tudo estava aberto, nada era mais novidade, era possível saber como burlar a tecnologia… Não houve controle algum sobre quem estava presente, quem voou, para onde a informação vazou… Assim como neste evento, em muitas apresentações comerciais e operacionais, frequências de operação eram abertas a qualquer um, equipamentos sensíveis eram mostrados, os detalhes operacionais eram minuciosamente descritos… A confidencialidade e a discrição, fundamentais para o sucesso dos negócios e interesses de todos os envolvidos, estava se perdendo… O “Jammer” entrou em ação porque se sabia como a coisa toda funcionava.

Por que empresas fornecedoras fecharam? A crise no setor começou a dar suas caras. As empresas concorrentes fabricantes e prestadora de serviços começaram uma corrida louca para tentar diminuir os índices negativos de recuperação. As iscas já não eram tão eficientes por que já se sabia como burlar as mesmas. Aliada a isso, no desespero de se manter no mercado, as empresas usuárias das “iscas eletrônicas” partiram para diversas pressões junto aos seus fornecedores e a maioria destes, ficaram a mercê de leilões de preços, alguns usuários repassavam iscas e tecnologias entre os fornecedores e até mesmo as iscas eletrônicas eram desviadas para que outras empresas tentassem a “engenharia reversa”, na tentativa de se “fomentar” mais fornecedores, como se isso melhorasse a crise de recuperação de cargas. Não houve boa fé nessa abertura de tecnologia entre os concorrentes. Como dito anteriormente, isso tudo, aliado ao leilão de preços por parte de alguns usuários, fizeram com que algumas empresas sucumbissem no mercado ou, no esforço de manter-se ativo, decaíram operacionalmente. Digo que parte do mercado usuário “matou” a tecnologia de diversas formas. A falta de ética entre cliente-fornecedor e até mesmo os fornecedores entre si, colaboraram direta e indiretamente para o que antes era um sucesso tornasse um fracasso em crescimento. Só os fortes, com grupos poderosos se mantiveram no mercado.

Por que os índices de recuperação baixaram drasticamente? O “Jammer” entrou em ação! Já se sabia como burlar a tecnologia. Já se sabia como a coisa toda funcionava! Não há nada 100% seguro, mas um dos pilares da segurança é a não divulgação de funcionamento de determinados processos ou detalhes técnicos. Outro fator que contribuiu para baixa drástica de recuperação, foram profissionais mal formados em operações de campo. Uma coisa é um operador atrás de uma mesa numa sala operacional monitorar um sistema baseado em GPS… Outra, bem diferente, é um técnico em localização, chamado de “antenista” em campo buscando rastrear e localizar um sinal de rádio. A maioria não conhece e jamais teve acesso a conhecimentos teóricos e treinamentos práticos sobre o comportamento das ondas de rádio nos diversos ambientes.

Tecnologia escancarada para o mercado e para os criminosos, empresas em decadência, profissionais mal treinados… A receita ideal para o insucesso de todos os envolvidos…

Por que os dispositivos perderam credibilidade? Podemos perceber que, muitos erros em processos, erros operacionais, erros comerciais e administrativos podem refletir no sucesso das operações, criando a falsa sensação de que o “PRODUTO NÃO FUNCIONA”.  Mas, não podemos isentar a tecnologia, e como todo equipamento eletrônico, as “iscas de carga” poderiam apresentar problemas. Um caso que me deu calafrios na espinha foi tomar conhecimento de que uma empresa, pelo alto volume de vendas, não testava seus produtos na totalidade. Ou seja, a maioria das iscas eletrônicas eram “iscas placebos”.

Não tinham qualquer funcionalidade. Outras não passaram por testes preliminares para liberação e iam para o campo não operando. Outros lotes eram tão ruins que aparentemente funcionavam apenas os LEDs, dando a falsa impressão de que estavam aptas a proteger cargas. O próprio mercado consumidor muitas vezes exerceu pressão não dando a chance do não cumprimento de fases de testes. Era fabricar e jogar as iscas no mercado.

Poucas ótimas empresas nasceram e morreram precocemente por problemas internos também. Empresas com técnicos e engenheiros excelentes plantando literalmente na selva. Tinham oportunidades com um mercado todo pela frente e com forte concorrência (muitas vezes desleal), mas pelo aspecto técnico, havia lugar ao Sol.

Podemos constatar claramente que profissionais de vendas são melhor remunerados que um profissional de desenvolvimento ou equipes de desenvolvimento, contudo correm mais riscos. Desenvolvedores com profundo conhecimento estavam crescendo na selva sozinhos e as empresas não deram trato especial destinado aos seus desenvolvedores. A tecnologia e a inovação foram consideradas custos e não investimentos. Um mal necessário que não trazia dinheiro para a empresa. Justamente quando o “Jammer” entrou em ação, equipes rapidamente entraram em ação no desenvolvimento da “contra-tecnologia” para continuidade dos processos das empresas, mas… não se investiu e em muitos casos, desmantelou-se a própria empresa. Existe um motivo para uma empresa investir em seus desenvolvedores. Uma empresa existe para produzir e comercializar seus produtos e serviços.

Portanto, é seguro afirmar que é graças ao produto que a empresa existe. A continuidade dessa negociação faz a empresa continuar existindo. Seja para crescer ou para colher os frutos de sua plantação, desenvolvedores, gerentes de desenvolvimento, diretores de inovação, investidores se veem colhendo algo que não se sabe o que é, com alto risco de ser algo venenoso e, portanto, acabam por concluir que não vale a pena plantar. E tudo porque a atividade de desenvolvimento não é tida como algo fundamental dentro da maioria das empresas. Quem não pensou assim, ainda está no mercado. Lamentavelmente, a tecnologia de localização de cargas roubadas não chegou ao ponto final com a junção do LBS e o RF. O “Jammer” está ganhando muitas batalhas, mas não ganhou a guerra, pois há sim tecnologia a ser aplicada em que o “jammer” não consegue atuar… Há sim opções de localização além do GPS, LBS e RF…

É possível rever a relação das empresas desenvolvedoras e provedoras de tecnologia contra o roubo de cargas e as seguradoras, gerenciadoras de risco, embarcadores, transportadoras. Ainda há tempo para se reverter o jogo. Devemos voltar a focar verdadeiramente na SEGURANÇA em todos os seus aspectos, deixando o faz-de-conta de lado.

Não cabe aqui dizer que queremos que todo o processo seja secreto, mas com certeza queremos um processo extremamente discreto. Queremos empresas fornecedoras técnica, operacional, financeira e comercialmente saudáveis. Precisamos de um mercado com fornecedores e usuários unidos pelo espirito da solução e eticamente fortes, pois só assim, voltaremos a estar, como nos bons tempos, um passo a frente da criminalidade.

Fonte: https://www.linkedin.com

3 Comentários


  1. Parabéns pelo artigo!


  2. Artigo muito técnico, parabéns ao autor…

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