Roubo de cargas no RJ bate recorde enquanto delegacia especializada perde metade da equipe

No ano de 2005, mais de cem policiais civis trabalhavam na delegacia. Agora, são cerca de 50. A redução, apontada pela Federação das Indústrias do Rio de Janeiro, foi confirmada pelo próprio delegado titular da especializada, Maurício Mendonça. Ele afirmou à CBN que, como a equipe está reduzida, é ‘quase impossível’ dar conta de todo o estado.

 

Aumento do roubo de cargas leva prejuízo a comerciantes e transportadoras na área da Pavuna (Crédito: Silvana Maciel)

Aumento do roubo de cargas leva prejuízo a comerciantes e transportadoras na área da Pavuna

Crédito: Silvana Maciel

Por Bárbara Souza

A delegacia especializada no combate a roubos de cargas do estado do Rio perdeu metade do efetivo ao longo da última década. No ano de 2005, mais de cem policiais civis trabalhavam na delegacia. Agora, são cerca de 50. A redução, apontada pela Federação das Indústrias do Rio de Janeiro, foi confirmada pelo próprio delegado titular da especializada, Maurício Mendonça. Ele afirmou à CBN que, como a equipe está reduzida, é ‘quase impossível’ dar conta de todo o estado. Ele também criticou a falta de concursos pra contratação de novos agentes. O Rio de Janeiro é o estado campeão em roubos de carga no Brasil, com 9.862 casos registrados em 2016, de acordo com dados do Instituto de Segurança Pública. O número representa um aumento de 220% em cinco anos. Segundo um estudo realizado pela Firjan, os prejuízos superam 2 bilhões de reais e atingem vários setores da economia. O gerente de estudo e infraestrutura da Federação, Riley Rodrigues, diz que, além das empresas transportadoras, do comércio e da indústria, o governo do estado também perde dinheiro por causa das cargas roubadas. Ele explica que o produto roubado não é taxado, portanto a comercialização não gera impostos, o que prejudica a arrecadação do estado.

“E aí você tem o impacto social do roubo de cargas. Sem contar o aumento da violência em determinadas regiões. Todo aquele clima de segurança, o terror da população no entorno também é um impacto social. Então o roubo de carga afeta a sociedade de várias formas: economicamente, socialmente e tributariamente os órgãos públicos”.

Além de impactar os cofres públicos, os roubos de cargas levam prejuízos financeiros às transportadoras, aos empresários e ao consumidor final. Os empresários já pagam cerca de 30% a mais de frete pra contratar novos seguranças pra trazer produtos de outros estados, segundo a Associação Produtores Usuários Ceasa Grande Rio. O aumento no valor é diluído na mercadoria e chega ao consumidor, que também acaba pagando mais caro. Os caminhões que fazem o transporte de carga no estado do Rio se tornaram alvo das quadrilhas, principalmente, na BR-101, Washington Luís e Dutra. Duque de Caxias, na Baixada, e a região da Pavuna, na capital, são os locais onde a Federação do Transporte de Cargas do Rio afirma terem sofrido o maior aumento da ação dos criminosos. No caso do bairro da Zona Norte, o presidente da Fetranscarga, Eduardo Rebuzzi, diz que os bandidos têm sido cada vez mais violentos. Os criminosos seriam, em sua maioria, ligados ao tráfico de drogas no Chapadão e na Pedreira. Por causa do perigo, o setor de transporte de carga resolveu cobrar dos fornecedores uma taxa extra pra levar o carregamento até alguns lugares da Região Metropolitana. A ideia é cobrir novos gastos com seguro e escolta. A cobrança pode variar de 0,3 a um por cento do valor da carga transportada, segundo Eduardo Rebuzzi.

“Mas o que mudou no Rio, foi a atuação maior entorno da Pavuna, região da comunidade do Chapadão e Pedreira. Também no início da Dutra, Washington Luis e Avenida Brasil. É o pior ponto. É um raio de 4 km em torno das comunidades. O tráfico de armas e de drogas descobriram no roubo de carga uma forma muito fácil de fazer capital de giro. As empresas de transportes não querem transportar pra cá”.

A violência nas rodovias, no entanto, não se restringe apenas ao roubo de cargas. Motoristas e pedestres também são alvo dos criminosos. Quem passa pela BR-101, principalmente no trecho de São Gonçalo, tem medo de assaltos e arrastões. Esse mês, um professor universitário foi morto a tiros durante uma tentativa de assalto no acesso à BR-101, pelo bairro do Boa Vista, em São Gonçalo. João Alfredo Teixeira Neto foi surpreendido por vários criminosos que roubavam a carga de um caminhão. Um ouvinte da CBN nos procurou pra denunciar a violência nesse trecho. Ele, que não quis ser identificado, é morador de Manilha, em Itaboraí, e conta que já foi assaltado no local e vê quase diariamente cenas de roubos.

“A BR na verdade tem uma série de problemas de fiscalização por parte das autoridades. Eu canso de ver motos sem placas andando livremente. Já vi assalto a ponto de ônibus. Um morador do meu bairro foi morto na entrada da rodovia. O próprio pedágio já foi assaltado. Eu instalei o Sem Parar no meu carro justamente para não ficar dando mole. A BR nada mais é que um reduto de assalto e de arrastão”.

A enfermeira Élida Saldanha, que também mora em Itaboraí, foi assaltada no trecho de São Gonçalo da BR-101. Ela estava num ônibus de viagem quando dois homens armados, que já estavam no veículo, renderam os passageiros e o motorista.

“O assaltante pediu para o motorista manter a luz apagada e foi recolhendo o dinheiro, celular e objetos de todo mundo. Ele estava armado, com uma arma grande, e ia apontando para a cara de todo mundo”.

Os militares e civis que trabalham na Base dos Fuzileiros Navais na Ilha das Flores também lidam com as ameaças. No mês passado, três soldados foram assaltados, por cerca de dez criminosos. Procurada pela CBN, a Polícia Rodoviária Federal afirmou que a repressão aos roubos de cargas nas rodovias federais é uma das suas prioridades e que desde dezembro do ano passado está em andamento a operação ‘Rota Segura’, com reforço de policiais de outros estados e apoio da Força Nacional. Ainda segundo a PRF, em 2016, houve um aumento de 418% no número de prisões em relação ao ano anterior. A Polícia Civil não comentou a redução do número de agentes da Delegacia Especializada em Roubos e Furtos.

Fonte: http://cbn.globoradio.globo.com/rio-de-janeiro/2017/02/27/ROUBO-DE-CARGAS-NO-RJ-BATE-RECORDE-ENQUANTO-DELEGACIA-ESPECIALIZADA-PERDE-METADE-DA-EQUIPE.htm

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