Ger. de Riscos – As pessoas por trás das centrais de rastreamento

Autor: Libertino Alves

Supervisor de Gerenciamento de Riscos – Grupo Apisul

Gerenciamento de riscos

O gerenciamento de riscos existes em diversos segmentos da economia, na verdade deveria existir em todos pois não há negócios sem riscos, sem variáveis que podem trazer perdas. Não é possível zerar os riscos de um segmento, mas o GR traz normas e procedimentos que visam reduzir os riscos conhecidos a um nível aceitável. No transporte terrestre de cargas ele é fundamental e tem como uma das principais armas o rastreamento.

Transporte de cargas

No transporte ele é comumente associado ao rastreamento de veículos de cargas, o que não é errado mas que também não é de todo correto. O rastreamento de veículos de cargas está contido no gerenciamento de riscos e é parte muito importante do processo de transporte, hoje tudo o que se transporta desde minério a alimentos é passivo de roubo, logo o transporte deve ser rastreado/monitorado, para isso existem as chamadas centrais de rastreamento que precisam de pessoas e estas são os OPERADORES.

Centrais de rastreamento e seus operadores

Não há no Brasil um tomador de serviços de GR que não tenha reclamações quanto ao rastreamento, o que muitos deles esquecem é que as pessoas na ponta deste processo são de todas as que trabalham nas piores condições e recebem as mais baixas remunerações de toda a cadeia de abastecimento, sim estou falando dos OPERADORES DE RASTREAMENTO.

O ambiente numa central de rastreamento é sonoramente poluído, normalmente sem janelas, sem vida aparente, são diversos telefones, rádios, computadores, mais chefes que índio para trabalhar, não se pode conversar com colegas de trabalho, não há intervalos de descontração e o ambiente é estressante e pesado. Uma bolsa de valores tem estresse similar com ganhos infinitamente maiores.

Sem falar das escalas e horários, escala 5 x 2 é luxo (o famoso segunda a sexta não existe), quem consegue um 12 x 36 é rei.

Quando eu penso em uma central de rastreamento lembro de dias eternamente nublados.

Todo negócio de sucesso deveria ter como base os três P’s (Processos, Pessoas e Produtos não necessariamente nessa ordem) porém no GR de Transportes de Cargas as pessoas que ajudam a finalizar o seu processo, que é entrega do seu produto são normalmente inexperientes, transitórias e muito mas muito mal remuneradas em comparação com a responsabilidades que carregam.

Transitórias porque ninguém na vida (e quando eu digo ninguém é na tradução ortográfica e gramatical da palavra) cresceu planejando se tornar operador de rastreamento, aliás muita gente não tem ideia do que seja isso. A pessoa não é OPERADOR DE RASTREAMENTO ela ESTÁ operador de rastreamento assim como está operador de telemarketing, ela está nesta função temporariamente só enquanto não encontra nada melhor pra fazer, porque estava sem opção devido à crise econômica e etc. O chamado TurnOver em centrais é gigantesco, os que insistem e tem perfil acabam por se tornar lideres, supervisores e etc.

O perfil dominante em centrais de rastreamento são de jovens que acabaram de completar 18 anos, que normalmente moram com os pais, isso deve se aos baixos salários e ao alto nível de estresse da função, condições que não atrai profissionais maduros.

A média salarial não passa de R$ 1300,00 reais em São Paulo e que não passa dos R$ 1000,00 em outros estados, qualquer cargo em um supermercado por exemplo, tende a parecer muito atraente perto dessas condições. Aliado a tudo disso o operador de rastreamento é normalmente demitido sumariamente em um eventual erro, o que só aumenta o TurnOver. A alta rotatividade de pessoas neste setor traz a inexperiência de qual eu falei acima, inexperiência traz insegurança e insegurança traz as reclamações. Os operadores não tem tempo para desenvolver o chamado “feeling”, a aprender a analisar situações, tudo é muito automático, não conseguem desenvolver raciocínio lógico voltado ao processo de GR.

Alguns poderão não entender o ponto onde quero chegar, mas o que se deve saber é que estes profissionais chegam a monitorar cifras acima de R$ 35 milhões por dia, isso é apenas uma média porque dependendo do tamanho da operação de transporte, o valor embarcado ultrapassa R$ 5 milhões de reais em um único veiculo.

A responsabilidade enorme gera mais um risco para gerenciar pois uma pessoa que recebe cerca de 0,0002% do valor transportado em um único veículo, pode cair em tentação, está com a faca e o queijo na mão mas isso é assunto pra uma outra discussão.

As centrais de rastreamento e seus operadores podem coroar ou por a perder todo o planejamento feito pelo gerenciamento de riscos mas ainda assim são tratadas como parte menor do processo, normalmente só são lembradas nas crise, na maioria das vezes são terceirizadas. Alguns transportadores ainda não enxergam seu real valor e só as tem para atender suas apólices, são obrigados.

Empresas visionárias e pioneiras montam suas centrais, valorizam seus operadores e usam isso como atributo de marketing na hora de atrair seus embarcadores que se preocupam cada vez mais com a segurança dos seus produtos, uma pena que eu lembre de menos de 5 delas. Essa é a visão de um negócio que conheço bem, pra muitos isso é apenas uma reclamação, creem não ter como melhorar a remuneração das pessoas num setor que já gasta muito com segurança, mas valorização vai muito além de remuneração, hoje sequer existe um sindicato sério da categoria.

Os riscos no TRC só aumentam, uma discussão sobre o assunto é preciso, iniciar um processo de educação para profissionalizar e valorizar as pessoas nesta área é um desafio que temos que aceitar e iniciar imediatamente.

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